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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Luna IV



Havia uma garota ajoelhada em frente a uma velha árvore, de olhos tristes e expressão cansada. Pobre menina-mulher, se pudesse recuperar cada sorriso que perdeu, sem dúvida, os guardaria bem fundo em seu coração. Se pudesse ouvir a voz daquela pessoa especial que se foi, fecharia os olhos e tentaria manter as palavras vivas para sempre. Sei que se você pudesse beber todas as lágrimas que já derramou, seria uma mulher mais completa. Mas não há como voltar atrás, não há como capturar todos os pequenos fragmentos do “novo amor” que voaram para se transformar em “longo amor” e torna-los menos “ideais” e mais “reais”.


Querida menina, se você pudesse acertar sempre, se tivesse o poder de prever o futuro, não sentiria seu coração apertar quando tudo parece estar indo por água abaixo, uma, duas, três; milhões de vezes.


Se tivesse uma máquina do tempo, não haveria ansiedade por um telefonema, medo de certas palavras, erros de amor ou grosseria por desespero. Porém, não há como mudar o que a vida solidificou, há apenas como ser melhor do que seus erros e mais forte do que seus medos. Basta levantar deste chão, erguer sua cabeça e limpar as suas lágrimas. Há um dia melhor, um momento melhor e uma grande alegria por trás desses minutos impertinentes por quais está passando.


Mulher boba, garota forte, a única coisa que você tem agora é o presente e, pelo menos, dez oportunidades de mudar a sua vida com uma escolha. Não ligue para o que os outros dizem, porque de nada servirão as regras quando o tempo acabar e todos os seus sonhos se tornarem inatingíveis. De nada servirá o orgulho e a experiência dos outros quando for a sua cabeça que estará na forca.






JeHh Bueno

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A saga do Homo-babaca

Quando o homem caminha pelo mundo em busca do sentido da vida, é porque já não tem certeza de quem é e já não dá valor no que tem. Isso acontece quando se escuta todas as vozes invisíveis da sociedade, quando se confunde valores e épocas, fases e momentos.
Tudo o que esse homem encontra, são becos sem saídas. Será que está perdido ou é apenas um Homo-babaca?

Quando um homem no vale da morte escuta um aviso, mas não olha pra trás porque passou o perigo, ele já está convencido de que a mulher é o descanso de um guerreiro ferido. Será que ele é forte ou é apenas um Homo-babaca?

Quando um homem descola uma mulher e na hora de levá-la para cama saca que se deu bem só pela fama, não imagina que essa mulher só quer usá-lo. Que tudo o que ela realmente vê é um rosto bonito e um corpo sexy com bafo de cerveja e barriga de velho. Será que ele é tudo "aquilo" ou é mesmo um Homo-babaca?

E se na hora do conflito, ele diz que não tem nada com isso, caga montes para quem sempre esteve ao seu lado, desmerece quem um dia chamou de grande amigo e engana quem já lhe ofereceu seu coração. Será que ele está errado e é mesmo um homo-babaca?

E quando ele decide se arrepender, mas duvida do seu próprio poder, já está afogado num mar de angústia, cada vez mais irado e encurralado. Odiando-se por seu arrependimento e amando-se por sua humildade, será que ele precisa de ajuda, ou devemos deixá-lo morrer?

Essa é a saga do Homo-babaca. Espécie em extinção...

Espécie em extinção? Que nada, tá crescendo mais que praga!


(Intertextualidade da musica A Saga do Homo-Babaca do Capital Inicial)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

John Flanagan

Halt encolheu os ombros.
— É a guerra — respondeu ele — o truque é saber quais os riscos tomar.
— E como você sabe disso? — Borsa perguntou-lhe, sentindo que o pequeno barbudo estrangeiro havia ganhado a confiança e a aceitação do Oberjarl e seu Conselho de Guerra.
Halt sorriu enfaticamente para ele.
— Você espera até que acabe e veja quem ganhou — disse — Então sabe que aqueles eram os riscos certos a tomar.
(Ranger - Ordem dos Arqueiros)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Borboletas


Estava caminhando sobre o sol, acreditando que aquele seria um dia como outro qualquer, que olharia os pássaros e sorriria para as flores. Que desfrutaria o prazer de ver a rotina da beleza presente na simplicidade da existência.

Encostei na mesma árvore de sempre, esperando, dessa forma, fazer companhia para sua vida monótona e satisfatória e compartilhar a paz de seu silêncio. Ela era uma velha amiga. Eu a amava porque não tinha palavras para me consolar em dias tristes, nem para chamar minha atenção em dias felizes. Apenas ficava ali, sem exigir nada, sem precisar de mim.

Entretanto, naquele dia normal, ela falou. Porque o fez, não sei. Contou-me sobre o passado, sobre uma garota com vestido de seda rosa, que num dia como aquele, a abraçou e chorou. Chorou porque descobriu que sua vida era ilusão.

A história da garota era comum. Seu amado não cumpriu suas promessas de amor, deixou-a quando a filha de um barão mudou-se para a cidade. Quando perguntei a ela por quê não confortou a pobre menina, respondeu-me:

"A natureza da humanidade é instável. Humanos não foram feitos para prender-se a algo sólido e eterno como eu. E embora sua maioria não consiga enxergar isso, conseguem encontrar sempre outro motivo para viver, outro alguém ou alguma outra coisa na qual se prender."

"Ora, então não farei mais isso. Não me prenderei a nada ou a ninguém!" Apressei-me a dizer.

Por alguns minutos ela não disse nada. Até que me surpreendeu ao perguntar. "Você sabe amar?"

"Bem, eu já amei..." Respondi, incerta. Nunca encontrei as regras do amor para ter certeza de saber amar.

"Nunca amei. Não sei amar. Não preciso amar." Ela me disse, com sua voz dura. "Só preciso alimentar-me dos elementos que me rodeiam e existir. Tudo o que eu sou é uma certeza sem sentimentos. Talvez, se pudesse sentir, também gostaria de me aprender àquilo que me faz bem."

Quando terminou de falar, um sentimento estranho me acometeu. Parecia haver borboletas dentro de mim. Estava confusa e com medo. Não entendi ao certo o que a Árvore quis dizer, porém, guardei suas palavras em meu coração.

Pensei no futuro, no que ele está guardando para mim e as borboletas se agitaram ainda mais, deixando-me enjoada. Então, fui salva de meus pensamentos por um trovão que obrigou-me a correr da chuva.

Mais tarde, naquele dia, deitada nos braços de alguém que me amou, olhei para a solitária Árvore no meio da chuva e me senti feliz por ser humana. Talvez eu nunca entenda ao certo o que ela quis dizer, contudo, poderei sempre buscar respostas aonde for e levar comigo ou ir atrás de tudo aquilo ao qual não posso me prender.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Frank Fellita

" - Sinto muito não poder ajudá-lo - dissera o pai de Mack em iídiche*, chorando. - Trata-se de um homem, de uma criatura feita à imagem de Deus, com uma mente e um espírito que poderiam ter sido a salvação do mundo. Sinto muito não poder ajudá-lo.

Um sorriso humilde franziu os lábios de Brice Mack quando ele pensou em todas as avenidas que Reggie Brenningan - aquela criatura feita à imagem de Deus - abrira para ele. Então, lembrando-se do que lhe dissera Elliot Hoover, parou de sorrir. A máquina [do mundo] continua a funcionar por si mesma - posicionando forças, criando acontecimentos, trazendo pessoas..."


(As duas vidas de Audrey Rose)
*Iídiche: conjunto de dialeto judeu-alemão ou judeu-polaco.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Brisingr - Christopher Paoline


"Ele inclinou a cabeça e se aproximou para decifrar os símbolos que ela desenhara. Estava escrito: O trapaceiro, o charadista, o guardião do equilíbrio, o de muitas faces que encontra a vida na morte e que não teme nenhum mal; o que caminha através das portas.

- O que a levou a escrever isso?

- A idéia de que muitas coisas não são o que aparentam"

sexta-feira, 19 de março de 2010

Wonderland

Nós éramos jovens quando o vi pela primeira vez e eu era apenas uma menina aprendendo a juntar seus sonhos.
Como num conto de fadas, ele era meu príncipe, por isso lhe pedi que viesse me buscar, me levar para um lugar aonde ninguém pudesse nos encontrar, só para poder fingir que o tempo não existia e que nada poderia estragar a felicidade que sentia.

Não me importava que meu Romeu atirasse pedras em pássaros, eu era a princesa e estava construindo nosso castelo, tijolo por tijolo, antes que os lobos viessem para destruí-lo. Podia ouvi-los se aproximando, cada dia em que o esperava, era um dia mais perto dos cães selvagens, pensei que não viesse mais, que estaria perdida no meio de uma matilha faminta.
E então ele chegou, pegou a minha mão e me guiou pelo jardim do castelo, havia muitas flores de diversas cores e eu até podia voar com asas de borboleta. Pensei que estivesse no país das maravilhas, de pés no chão e cabeça nas nuvens.

Entretanto, algo parecia estar dando errado, ele sorriu para mim e se afastou. Fiquei confusa, tudo o que podia ouvir era um badalo frio e sádico. O chão pareceu sumir de meus pés eu estava despencando de ponta cabeça. Talvez estivesse enlouquecendo.
Os badalos continuaram, até que eu entendi. Era o relógio marcando meia-noite, era tudo um truque e pude sentir o desespero de Cinderela. Tentei bater minhas asas, porém elas não funcionavam mais. Tentei gritar, mas estava num conto de fadas, muito longe para que qualquer um me encontrasse, já havia me esquecido do gosto e do cheiro do mundo que deixei.
Tudo o que conhecia eram as lendas que me contaram, contudo, os ângulos estavam todos errados, como poderia lutar?

Tinha construído um mundo mágico, porque minha realidade era cruel demais para viver e agora descobri que não há como fugir da tragicidade da vida.
Me dêem uma pá, quero cavar um buraco para enterrar meu castelo, porque sim, eu vou sobreviver a isso. Mesmo que o mundo esteja se partindo, quando eu finalmente atingir o chão não vou apenas me virar, vou cavar bem fundo um buraco para enterrar meu castelo.

Nunca mais cairei num truque novamente, vou me defender até o fim, pois aprendi que se algo não é real, não há como enxergar, não há como sentir com o coração e então não vale à pena.
Eu não vou mais acreditar no que não posso ver.
Jéssica Bueno
Créditos:
Brick by boring brick - Paramore // Wonderland - Avril Lavigne // Love Story - Taylor Swift

segunda-feira, 15 de março de 2010

Pontes partidas


O mundo sempre pareceu-lhe colorido demais, naquele momento a própria escuridão noturna era para ele luminosa, tinha a impressão de que as estrelas caíram do céu para brincar pelas ruas e avenidas da calma e quente Califórnia.
Sentiu braços macios e delicados o apertar em um abraço pela cintura, virou-se para encarar sua namorada, com olhos azuis indagadores, ela sempre parecia cismar que ele escondia seus pensamentos mais profundos. Bem, ela estava certa.

Mas não há como mudar a essência de um espiríto em fuga.

E ele fugia. Sempre parecia estar querendo escapar de alguma coisa, tinha a sensação que aonde quer que fosse, sempre haverá algo ou alguém atrás dele, pronto para aprisioná-lo. Como poderia dividir esses pensamentos com alguém? Certamente lhe chamariam de louco ou desconfiariam de uso de drogas de sua parte.
- Você está com aquele olhar profundo de novo, Drew - acusou Lily
- Bobagem. Estava aqui tentando entender porque as estrelas sumiram essa noite.
Mas os olhos maquiados de Lily se apertaram, ele nunca conseguia enganá-la.
- Não gosto desse olhar, parece que vou cair no seu abismo se ficar olhando-o por mais tempo.
- Então não olhe - disse ele, beijando-a intensamente. Durante alguns minutos, limitaram-se a abraços e beijos.
Contudo, já estava tarde e tinham que ir embora. Festas em prédios abandonados eram legais, mas só enquanto a polícia não descobrisse.
Caminharam em silêncio até o carro dela, antes entrar, porém, Lily olhou em seus olhos novamente e sua expressão estava triste
- Não posso não olhar Drew, porque ainda que o seus olhos pareçam abrigar o mar, seu amor por mim está aí em algum lugar, e eu nunca vou desistir de encontrá-lo.

Ele não respondeu. Queria poder dizer-lhe que a amava, entretando, durante aqueles dois meses juntos, essas palavras de afeição teimavam em enroscar-lhe na garganta. Ao invés de dizer algo, passou os dedos nos cabelos castanhos de Lilian, deu-lhe um beijo na testa e com uma piscadinha, caminhou em direção à sua moto.
Foi embora sem olhar para trás, fugindo daqueles olhos que teimavam em decifra-lo, fugindo daquela garota que o fazia querer ficar para sempre com ela.

E principalmente, fugia do desejo de não mais querer fugir.

Seus pais estavam acordados quando chegou em casa, o que era incomum para um dia de domingo. Sua mãe tinha no rosto uma expressão de quem tentava manter a calma. Seu pai passou o braço ao redor de seus ombros e disse:
- Venha moleque, temos que conversar.
Como ex-tenente do exército, seu pai tinha modos bruscos e uma maneira rigida de lidar com ele, era algo que não lhe fazia a menor diferença, pouco se importa de levar bronca ou uns cascudos. Era seguro de tudo o que fazia, e arrependimento era um sentimento pouco conhecido por ele.
- Você foi convocado pelo exército para cuidar da sede da ONU no Iraque. - Disse o pai de supetão quando chegaram na cozinha.
Uma onda gelada percorreu todo o seu corpo, quis pensar que era uma onda de adrenalina e não o puro terror que pareceu decidir montar acampamento dentro dele.
- Quando? - Foi apenas o que conseguiu dizer.
- Amanhã partem. Arrume suas coisas. Boa sorte.

Sua mãe quis fazer um lanche para ele, ele não aceitou. Quis ajudá-lo com a mala, ele não aceitou. Quis confortá-lo, ele também não aceitou.
- Me deixe fazer algo por você, meu filho. Não sei quando nos veremos de novo. - Suplicou ela.
Ele a abraçou comedidamente.
- Ei baixinha, você já fez muito por mim, me ensinou a andar, a distinguir o certo do errado e a amar. Agora é por minha aconta.
Ela o olhou longamente, como se o estivesse vendo pela primeira vez. O abraçou como se nunca mais fosse abraçá-lo de novo. E deixou o quarto a passos largos, como se nunca mais pretendesse entrar nele outra vez.

Andrew olhou ao redor, pegou seu saco do exécito e começou a arrumar suas coisas. Não podia levar muito, mas de qualquer forma, quando se caminha para morte não, não há muitas coisas que sejam realmente importantes. Meia duzia de cuecas, quatro camisetas brancas, quatro calças camufladas, meias, escova de dentes e uma foto.
Fechou seu saco, tomando o cuidade de deixar de fora seus sonhos, seus medos e suas lembranças. Preferiu organizar estes em uma pequena caixa que também continha uma foto. Endereçou-a a Lily, pensando no que ela lhe diria se ele fosse se despedir, provavelmente que não poderia ir a guerra sem esperança e amor. Bem, o segundo ele realmente não conseguia tirar de dentro dele, nem ao menos para dize-lo.
Porém, esperança, de que? De vencer uma guerra para que pudessem arrumar outra? De matar o suficiente para poder viver?

Para aquele jovem, não existia esperança numa guerra. Apenas o desespero, visto nos soldados que agarravam suas armas como se assim pudessem agarrar as próprias vidas.
Deitou-se na cama, logo seria dia de novo. Tratou de fechar os olhos, selando dentro dele o pavor, a sensação de perigo eminente, e sua vontade de fugir. Tudo pelo qual ele era capaz de lutar.

E lutou, mas de maneira nenhuma a guerra foi dentro dele.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Luna.


"What is this feelin' takin' over?
Miss guarded heart
Miss play it smart
Miss if you wanna use that line you better not start, no
But she miscalculated
She didn't wanna end up jaded
And this miss, decided not to miss out on true love,so
By changing a misconception
She went in a new direction
And found inside, she felt a connection
She fell in love."
(Miss independent - Kelly Clarkson)


Talvez eu esteja perdida no escuro. Mas não é um escuro depressivo, sinônimo de solidão. É um que nos faz enxergar apenas o que gostamos de ver; é como poder distinguir apenas algumas cores. Não é tudo, porém, pode ser o suficiente. Não sei ao certo em que momento dessa história fiquei "dautonica", mas espero continuar assim por enquanto. Céus, o que aconteceu comigo?

Houve um tempo em que nada podia abalar minhas certezas, tempo em que meu coração era blindado. Pergunto-me em que parte desse tempo baixei a minha guarda. É como se tivesse bebido uma boa dose aquela noite, dose de loucura, e os efeitos demoram a passar.
Contudo, eu apenas rio e aproveito, não me importa não saber mais aonde estão as minhas barreiras, não me importa ter que tatear no escuro. Cedo ou tarde, as luzes sempre serão acesas, então, quero aproveitar isso da melhor maneira. Posso até repetir a dose essa noite, quem sabe o quanto poderei ver pela manhã?

Talvez meus olhos não tenham sido mesmo enganados, talvez apenas estejam se acostumando à claridade de um novo mundo. Posso sentir a brisa em meu rosto, estou livre das minhas prisões, livre da minha rotina de regras estúpidas. Um grito é tudo que eu preciso dar, pois já havia esquecido como é bom sentir que se está em um sonho. E não quero me digam para tomar cuidado com quedas e alturas, não preciso de um "eu avisei". Estou feliz por poder ser quem eu sou o tempo todo, e não me importa o quanto isso possa ser perigoso.

Pois há aqui um coração nervoso batendo loucamente e não há nada mais perigoso do que isso.

sábado, 30 de agosto de 2008

Descritividade

Fechou a porta do quarto sem nenhum barulho, a maçaneta prata em formato de concha, adornada com minúsculos desenhos dourados, estava quente ao seu toque. Virou-se lentamente para o ambiente, sorriu para a cama de casal muito bem arrumada, com uma colcha lilás perfeitamente bordada. Descansavam sobre ela, cinco belas almofadas, também encapadas por um pano bordado, mas desta vez, tão branco que reluzia a fraca luz do sol que entrava pela fresta da janela aberta à direita. Em baixo desta havia uma convidativa poltrona sem encosto, para que se pudesse olhar com conforto, por horas, para os magníficos jardins que estavam além da janela. Tirou os sapatos e deu seis passos a frente e três para a esquerda, sentindo a maciez do tapete que se esticada no centro do cômodo, era branco, mas seus desenho era inteiro lilás, pássaros que voavam sob um campo, no qual a imaginação permitia dizer que era verde. Olhou em direção a porta entreaberta do closet, dava-lhe arrepios, de seu interior parecia que, a qualquer momento, olhos iriam cintilar em meio a escuridão.
Dois longos minutos se passaram, nos quais ela encarou a sombra com olhos atentos e arregalados, parecia estar pregada no chão por um medo invisível até que, uma onda de coragem e determinação fervilhou em seu interior, fazendo-a correr e fechar aquela porta fria sem exitar. Passou tão rápido, que não notou a escrivaninha branca ao lado direito da porta, onde uma grande quantidades de enfeites de louça haviam sido derrubados, por algum estranho e desconhecido motivo.
Um calafrio lhe atingiu a espinha, segurou com mais força o trinco do closet, como se esperasse que alguma coisa, ou alguém, lutasse do lado de dentro para reabri-la. Respirando fundo, voltou-se para o quarto, dando alguns passos em direção aos raios de sol, sentindo o calor voltar ao corpo; como se um velho amigo lhe estivesse abraçando. Virando-se para a parede a sua direita, sentou se na bela e estofada cadeira de uma luxuosa penteadeira. A madeira branca era suave e lustrosa, em cima desta, havia uma coleção de cremes e perfumes, além de acessórios para o cabelo e maquiagens. Pegou com carinho uma escova de metal, fabricação única, feita especialmente para sua dona, com uma rosa perfeitamente desenhada, como se uma caneta tivesse talhado o material frio e brilhante, o caule descia por todo o cabo dela, e inscrições diziam: "A perfeita, para a mais bela".
Mergulhada em pensamentos, se sobressaltou quando a porta do closet a sua esquerda se abriu bruscamente, seu coração disparou quando reconheceu o homem que caminhava para ela, e um arrepio lhe dominou ao notar o que trazia nas mãos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Quando Ela vem

Estava distraída quando ela me atingiu, o impacto foi simples e longo, pude contar cada segundo como se fosse um minuto. Lembrei-me como flash que tinha deixado uma panela no fogo, sempre fui desligada, mas nunca pensei que algo assim poderia acontecer comigo.
Quando ela começou a tocar minha pele, reparei que não havia muitas pessoas na rua, e antes que pudesse conter, gritei tão alto, quanto jamais havia gritado em toda minha vida. Percebi que havia me furado quando um sentimento desconhecido agulhou-me no estômago, quis mais que nunca falar com Mário, tinha que lhe contar que mais um bebê estava por vir, Ana Lú ficaria tão feliz em saber, ela queria muito um irmãozinho.
Meus joelhos cederam e eu cai de costas, o céu azul-alaranjado ficou gravado em minha retina, permanentemente; também ouvi crianças gritando, o que me confortou. O som da vida, senti falta daquela época onde chorava para minha mãe quando me machucava e ela dizia que estava tudo bem, sempre curava tudo com aquela mágica-de-mãe; todos os arranhões que se ganha ao pular portões, todas as "esfoladas" no joelho dos piores tombos, todos os medos de dormir sozinha no escuro, todas as manhas do mundo.
A verdade esbofeteou-me dolorosamente, quando era criança, tinha tempo de sobra, quando cresci, comecei a ter tempo de menos. E quanto "menos", daria um minuto para poder dizer mais uma vez à minha filha o quanto a amo e que sempre estarei com ela, um minuto para dizer ao Mário, que ele foi muito especial na minha vida e que jamais esquecerei do café-da-manhã com rosas, quando fui demitida do segundo emprego.
Todos os dias já desvalorizados pareciam lindos, me agarrei a cada eterno segundo, mas Ela chegou, desta vez, não a bala que tirou-me a vida, mas a morte que levou-me deste mundo. Preferi andar ao lado dela, sem olhar para trás.

Afinal, tudo valeu a pena, não haveria motivo, para olhar para trás.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Quebras de identidade.

Compartilhar-lhes-ei a história de uma fada, que me encantou de uma maneira esplendida e atraiu minha atenção por horas, meses e anos. Quando a vi pela primeira vez, havia nela um olhar brilhante, as luzes dançavam ameaçadoras, como se a qualquer momento fossem mudar sua coreografia. Confesso que, sobre ela, esperava qualquer coisa, qualquer atitude linda e encantadora e aguardava sempre para mais de seus sorrisos sol.
É lastimável que eu tenha me esquecido que nem sempre o sol brilha, que há dias cinzentos. Mas o pior de meus esquecimentos, foi o de achar que paredes não existem.
Todos os dias a via saindo em busca de seus sonhos, sua carreira como estilista parecia estar-lhe traçada, só faltava encontrar uma empresa que desse a ela o devido valor. Infelizmente nos falávamos pouco, mas ainda mais infeliz é a real idéia de que fui eu, e confesso com culpa, que dei a ela a oportunidade de trabalhar em uma das maiores empresas de moda de New York. A verdade é que, sempre achei que minha fada, fosse capaz de fazer qualquer coisa, talvez tenha subestimado seus encantos, porém, não a deixei sozinha em momento algum. Logo me mudei para lá, e segui meu cargo na empresa de meu pai, inicialmente, ela brilhou. O orgulho me dominou de tal forma, que tive a necessidade de provar a todos que ela era capaz de mais, minha rainha mística. Dei meu jeitinho e a coloquei em um cargo chefe, ela simplesmente tinha o poder sobre grande parte dos funcionários, era responsável por tudo em sua seção.
Notei que sua vida se tornou um pouco corrida, mas sabia que isso não era nada demais para ela. Porém, um raro dia em que conversamos, notei que o brilho dançante em seus olhos havia sumido, pude perceber que eles estavam opacos e distantes, perguntei-lhe se estava tudo bem, foi quando percebi o que havia feito. Afastei-a de seus amigos, de sua família e por uma desventura, do homem que possui seu coração. Sim, para meu desencanto, este mero mortal, ainda possui o coração de minha fada.
Com peso na alma, disse-lhe que devia voltar para casa e que a recomendaria para uma boa empresa brasileira, ela recusou terminantemente, alegando que não poderia deixar todos na mão, que precisavam dela no trabalho e que havia começado uma coleção de inverno. Foi quando mais me assustei, a garota que via buscar seus sonhos, não se prenderia jamais a uma coleção de inverno que não desejava, a fada que me encantou, buscava sobretudo, sua felicidade e procurava transmitir alegria. Seu desejo sempre foi inovar a moda, principalmente as roupas de verão, onde poderia brilhar. Perguntei a ela o que pretendia fazer no final de semana, respondeu que iria trabalhar, então, quis saber quais os planos dela para as férias, ela disse que iria descansar e começar a desenhar modelitos que superassem a empresa concorrente.
Minhas entranhas se reviraram de incômodo, certamente coloquei carga demais sobre ela, afinal, fadas são delicadas e exigem ser tratadas com carinho, tentei convence-la de que seria melhor sair de férias mais cedo e ir para casa de seus pais; ah, que decepcção foi a resposta! Para se manter no trabalho, brigou com seus pais, não se falou com seus amigos e foi deixada pelo dono de seu coração.
Havia a minha frente, uma garota com vida de mulher, com um coração desgastado e um olhar apagado, não seguia mais seus ideais, "os perdi, voltar não me fará viver no passado, nem construir um futuro. Só me resta continuar no presente" disse para mim. Tentei faze-la mudar de idéia, mas era inútil, a fada encantada se perdeu no caminho, os sonhos que a envolviam, já não existiam, seu sorriso se tornou um empregado, só estava lá quando ela precisava dele.
Decidi que o melhor era me afastar dela, desconheci minha paixão, não se pode lutar por quem não luta por si mesmo. Soube que a garota está muito bem na empresa, que sabe como manter a postura de seus funcionários, pena que não soube manter quem era.